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A mostrar mensagens de junho, 2025

3 - Entre o gelo e a rosa!

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Eu vejo‑me e invejo‑me — reflexo enevoado num espelho que arfa. Tento correr para dentro, recolher‑me ao abrigo secreto das minhas costelas, mas o ar anuncia um inverno precoce. Está frio, um frio que estala a pele e pinta as paredes de escarcha; por todo o lado há um rasto congelado que, ironicamente, derrete devagar como um gelado a sangrar do pulso de uma criança curiosa. Ainda assim, há esperança de que tudo não passe de uma lembrança guardada num bolso de casaco demasiado leve para a estação. Ainda que a dança seja como uma trança desfeita no teu cabelo, preso na teia dos meus dedos trémulos, há algo em ti que me encanta: um canto quase inaudível, como se murmurasses uma canção só para mim. Quase que te cansas de sorrir mas, obstinada, nunca páras — e eu, devota, nunca me canso de te seguir no compasso que inventas. Levanto‑me. As pernas rangem como dobradiças antigas enquanto corro a cortina, revelando a luz crua da rotina. Logo disperso: pensamentos sobrevoam‑me como pássaros ...

1º - Entre paredes e entrelinhas.

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 Todos os escritores são patéticos, fantoches na mão da vida, que se fazem usados pela caneta para entreter as paredes, para entreter medos e segredos. Porém, nem elas querem saber o que vou dizer; talvez perder seja necessário, ainda que precário seja o trabalho de desenhar palavras para o vazio preencher, ainda que não haja um salário associado que nos possa fazer crescer, sonhar, acreditar. Incomoda, não incomoda? Como tudo vira moda, que toda a gente decora na tentativa de virar soja e começar a ser produzido em grande escala, para que os vegetarianos não sintam a falta de um leite de manhã, durante a tarde ou antes de ir dormir. Descuram de si para dar algo bem do fundinho do interior — aquilo que não são —, o desmorecer que parece erguer‑se, aos poucos, quando o querer fala mais alto. Mas nem isso basta; há escritores que chegue para acabar com a crise mundial. Mas nem todos se escrevem: uns apenas descrevem, sem profundidade nas palavras, nos contos. Não me revejo em metad...

2 - Entre o espelho e o Labirinto

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  O que eu quero? Talvez um malmequer, desses que se desfolham entre dedos ansiosos, que seja o que a vida quiser, o que dela vier eu aceito! Eu abro o peito de um jeito só meu — nu, sincero, vulnerável — e como se também fosse teu, eu dou-te o mundo, tento até ao fim desse túnel, onde as paredes apertam e a luz hesita, porque sim, eu sei que a vida é só um tiro no escuro. E eu, o que sou? Vejo-me e compreendo-me, em silêncios que gritam baixinho, às vezes até me rendo a pensar nisso, e talvez seja por isso que ainda não tenha feito o sacrifício… e se tivesse feito? O que me falta se agora eu tenho calma, e já adormeço a pensar nela? Já tenho o meu espaço, por muito opaco e singelo — uma zona de conforto desbotada, mas minha —, já tenho o meu quadro cheio de fotos dos tempos em que éramos felizes. Agora parece que o meu bem-estar é estar quieta, no meu canto, a não ser quando me canso e então falo, falo, falo. Até que a minha voz se cala, e volta a acomodar-se no banco — aquele,...