1º - Entre paredes e entrelinhas.




 Todos os escritores são patéticos, fantoches na mão da vida, que se fazem usados pela caneta para entreter as paredes, para entreter medos e segredos. Porém, nem elas querem saber o que vou dizer; talvez perder seja necessário, ainda que precário seja o trabalho de desenhar palavras para o vazio preencher, ainda que não haja um salário associado que nos possa fazer crescer, sonhar, acreditar.

Incomoda, não incomoda?

Como tudo vira moda, que toda a gente decora na tentativa de virar soja e começar a ser produzido em grande escala, para que os vegetarianos não sintam a falta de um leite de manhã, durante a tarde ou antes de ir dormir. Descuram de si para dar algo bem do fundinho do interior — aquilo que não são —, o desmorecer que parece erguer‑se, aos poucos, quando o querer fala mais alto. Mas nem isso basta; há escritores que chegue para acabar com a crise mundial. Mas nem todos se escrevem: uns apenas descrevem, sem profundidade nas palavras, nos contos. Não me revejo em metade do que leio, talvez porque sempre me vi inteira e odeio metades. Talvez porque há palavras a mais para descrever o que sinto, e perder‑me não seja mais uma opção: é uma questão de perspetiva. Não estou a fazer julgamentos, muito menos a tecer comentários depreciativos sobre os escritores da contemporaneidade; estou apenas a concluir que se deixou de escrever a alma, para escrever com calma o que os outros querem ler. Mas e os que leem nas entrelinhas? Os que não se contentam com as migalhas? Onde ficamos nós?

Talvez no após da leitura, onde imaginamos o que poderia ter acontecido e deciframos livros com mente de policial atrás de um mistério que valha a pena aprisionar. Ou talvez só sejamos, nós, por inteiros.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Vem viver a vida comigo!

Conversas com a Depressão - A consciência (5º Conto)

Não é um sonho!