3 - Entre o gelo e a rosa!



Eu vejo‑me e invejo‑me — reflexo enevoado num espelho que arfa. Tento correr para dentro, recolher‑me ao abrigo secreto das minhas costelas, mas o ar anuncia um inverno precoce. Está frio, um frio que estala a pele e pinta as paredes de escarcha; por todo o lado há um rasto congelado que, ironicamente, derrete devagar como um gelado a sangrar do pulso de uma criança curiosa. Ainda assim, há esperança de que tudo não passe de uma lembrança guardada num bolso de casaco demasiado leve para a estação.

Ainda que a dança seja como uma trança desfeita no teu cabelo, preso na teia dos meus dedos trémulos, há algo em ti que me encanta: um canto quase inaudível, como se murmurasses uma canção só para mim. Quase que te cansas de sorrir mas, obstinada, nunca páras — e eu, devota, nunca me canso de te seguir no compasso que inventas.

Levanto‑me. As pernas rangem como dobradiças antigas enquanto corro a cortina, revelando a luz crua da rotina. Logo disperso: pensamentos sobrevoam‑me como pássaros indecisos — talvez seja carência do que ainda não pensei. Então alimento‑me de silêncios e migalhas de coragem, para não te ver partir, pelo menos enquanto estiver aqui, disposta a ser tudo para ti, mesmo que nunca chegue a ser nada na escala do universo.

Sabes? Que seja o que o fardo quiser. Deixei de lutar contra a maré, de me embalar no café amargo das madrugadas que eu, dantes, nem apreciava. Agora faço o oposto — ou talvez seja esse o suposto — desafiar as regras sem as quebrar, pôr‑me à prova de balas para poder ficar contigo. Eu também não sei se o que é certo algum dia o será, por isso larguei o café e converti‑me ao chá, libação morna que colore o peito. Agora até os sonhos me chegam cor‑de‑rosa — apesar de lhes faltar a rosa física. E eu, que nem gostava de flores, talvez descubra novas tonalidades se tu lhes deres cor; talvez eu lhes prove um sabor que me surpreenda. Se assim for, hei‑de encher a tua cama de pétalas, não só para me entreter, mas para selar a promessa de ficar contigo. Para sempre.

Lembra‑me do presente para sempre: tatuagem na pele do tempo. E eu agarrar‑me‑ei a ti com unhas, dentes e toda a fome do mundo — acredita.

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