2 - Entre o espelho e o Labirinto


 O que eu quero?

Talvez um malmequer, desses que se desfolham entre dedos ansiosos, que seja o que a vida quiser, o que dela vier eu aceito! Eu abro o peito de um jeito só meu — nu, sincero, vulnerável — e como se também fosse teu, eu dou-te o mundo, tento até ao fim desse túnel, onde as paredes apertam e a luz hesita, porque sim, eu sei que a vida é só um tiro no escuro.

E eu, o que sou?

Vejo-me e compreendo-me, em silêncios que gritam baixinho, às vezes até me rendo a pensar nisso, e talvez seja por isso que ainda não tenha feito o sacrifício… e se tivesse feito? O que me falta se agora eu tenho calma, e já adormeço a pensar nela? Já tenho o meu espaço, por muito opaco e singelo — uma zona de conforto desbotada, mas minha —, já tenho o meu quadro cheio de fotos dos tempos em que éramos felizes. Agora parece que o meu bem-estar é estar quieta, no meu canto, a não ser quando me canso e então falo, falo, falo. Até que a minha voz se cala, e volta a acomodar-se no banco — aquele, junto à janela, onde tudo parece suspenso —, parecendo que já não está ali, parecendo quase que não quer existir.

Talvez sim, ainda seja uma criança que ri de si, que está fora de tudo e dentro do mundo como se fosse capaz; que sonha ter paz e dar paz ao que sempre a rodeou, mesmo que a guerra lhe tenha dormido no colo vezes sem conta.

Desisti de correr porque estou cansada e nem sei o que é isso para mim, voltei à idade dos porquês, de modo a ser de novo tudo o que não vês, porque sinto que imergi. Agora só estou diferente, bastante ausente na minha vida, ainda que mais presente em tudo o que sinto, até que me permito entrar no labirinto — esse emaranhado de emoções, memórias e vontades —, para de novo me voltar a perder.

Eu sou o que tiver que ser, acordar de manhã e dizê-lo, em voz alta, em frente ao espelho embaciado pelo tempo. Não querer ser mais, melhor, pois às vezes chega sê-lo, naturalmente. Sentir só faz sentido quando te permites, ainda que queiras fugir, porque dentro de ti tudo se encolhe quando é o coração que escolhe. Mas leva o teu tempo, um dia colhes os frutos!

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Vem viver a vida comigo!

Conversas com a Depressão - A consciência (5º Conto)

Não é um sonho!