3 - Entre o gelo e a rosa!
Eu vejo‑me e invejo‑me — reflexo enevoado num espelho que arfa. Tento correr para dentro, recolher‑me ao abrigo secreto das minhas costelas, mas o ar anuncia um inverno precoce. Está frio, um frio que estala a pele e pinta as paredes de escarcha; por todo o lado há um rasto congelado que, ironicamente, derrete devagar como um gelado a sangrar do pulso de uma criança curiosa. Ainda assim, há esperança de que tudo não passe de uma lembrança guardada num bolso de casaco demasiado leve para a estação. Ainda que a dança seja como uma trança desfeita no teu cabelo, preso na teia dos meus dedos trémulos, há algo em ti que me encanta: um canto quase inaudível, como se murmurasses uma canção só para mim. Quase que te cansas de sorrir mas, obstinada, nunca páras — e eu, devota, nunca me canso de te seguir no compasso que inventas. Levanto‑me. As pernas rangem como dobradiças antigas enquanto corro a cortina, revelando a luz crua da rotina. Logo disperso: pensamentos sobrevoam‑me como pássaros ...