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3 - Entre o gelo e a rosa!

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Eu vejo‑me e invejo‑me — reflexo enevoado num espelho que arfa. Tento correr para dentro, recolher‑me ao abrigo secreto das minhas costelas, mas o ar anuncia um inverno precoce. Está frio, um frio que estala a pele e pinta as paredes de escarcha; por todo o lado há um rasto congelado que, ironicamente, derrete devagar como um gelado a sangrar do pulso de uma criança curiosa. Ainda assim, há esperança de que tudo não passe de uma lembrança guardada num bolso de casaco demasiado leve para a estação. Ainda que a dança seja como uma trança desfeita no teu cabelo, preso na teia dos meus dedos trémulos, há algo em ti que me encanta: um canto quase inaudível, como se murmurasses uma canção só para mim. Quase que te cansas de sorrir mas, obstinada, nunca páras — e eu, devota, nunca me canso de te seguir no compasso que inventas. Levanto‑me. As pernas rangem como dobradiças antigas enquanto corro a cortina, revelando a luz crua da rotina. Logo disperso: pensamentos sobrevoam‑me como pássaros ...

1º - Entre paredes e entrelinhas.

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 Todos os escritores são patéticos, fantoches na mão da vida, que se fazem usados pela caneta para entreter as paredes, para entreter medos e segredos. Porém, nem elas querem saber o que vou dizer; talvez perder seja necessário, ainda que precário seja o trabalho de desenhar palavras para o vazio preencher, ainda que não haja um salário associado que nos possa fazer crescer, sonhar, acreditar. Incomoda, não incomoda? Como tudo vira moda, que toda a gente decora na tentativa de virar soja e começar a ser produzido em grande escala, para que os vegetarianos não sintam a falta de um leite de manhã, durante a tarde ou antes de ir dormir. Descuram de si para dar algo bem do fundinho do interior — aquilo que não são —, o desmorecer que parece erguer‑se, aos poucos, quando o querer fala mais alto. Mas nem isso basta; há escritores que chegue para acabar com a crise mundial. Mas nem todos se escrevem: uns apenas descrevem, sem profundidade nas palavras, nos contos. Não me revejo em metad...

2 - Entre o espelho e o Labirinto

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  O que eu quero? Talvez um malmequer, desses que se desfolham entre dedos ansiosos, que seja o que a vida quiser, o que dela vier eu aceito! Eu abro o peito de um jeito só meu — nu, sincero, vulnerável — e como se também fosse teu, eu dou-te o mundo, tento até ao fim desse túnel, onde as paredes apertam e a luz hesita, porque sim, eu sei que a vida é só um tiro no escuro. E eu, o que sou? Vejo-me e compreendo-me, em silêncios que gritam baixinho, às vezes até me rendo a pensar nisso, e talvez seja por isso que ainda não tenha feito o sacrifício… e se tivesse feito? O que me falta se agora eu tenho calma, e já adormeço a pensar nela? Já tenho o meu espaço, por muito opaco e singelo — uma zona de conforto desbotada, mas minha —, já tenho o meu quadro cheio de fotos dos tempos em que éramos felizes. Agora parece que o meu bem-estar é estar quieta, no meu canto, a não ser quando me canso e então falo, falo, falo. Até que a minha voz se cala, e volta a acomodar-se no banco — aquele,...

Sonhei-te!

 Sonhei com pressa, Para aprisionar todos os medos.  Sonhei com urgência,  Para não se bastar na efervescência A vida que me urge das mãos.  Ser poeta não me chega,  Se nos sonhos não posso criar, Viver e ser poesia. Repara: só o sonho me adoça a alma.  A poesia é apenas o inverso Dos poemas convexos  Anexos à minha solidão.  Nos sonhos eu seguro a mão daquela que amei,  Acordada eu apalpo os espaços vazios,  Na esperança de encontrar,  Tudo o que idealizei.  A vida é dos que sonham,  E dos que se permitem sonhar. Não se enganem com as palavras bonitas, De quem as sabe dar. Palavras são tão ocas, como dizê-las num espaço côncavo  E quem se apodera delas,  A mais não é que um mero louco, Que procura em versos o que sempre soará rouco. Nos meus sonhos, exatamente no limbo entre o sono e a vida Tu és o ar que me mantém viva.  Mas na Terra dos homens sábios,  Tu deste-me a pólvora que me ateou a morte. Entã...

O Caminho (6º Conto do livro "Conversas Com A Depressão")

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       Dias produtivos são dias construtivos, Continuar em frente continua a ser o maior desafio, sinto o frio da madrugada por mim adentro, ainda sinto o vento da manhã gélida de inverno. O sol não faz derreter o gelo, nem faz surgir a força, muito menos a vontade. Por agora é só cinza no cinzeiro que nunca foi limpo nem utilizado, com água límpida ou de outros lagos. Por eu sempre nado por outros lados. Estou farta dos encargos, vida de adulta é só cargos e fardos. Que raio de lógica.       Ainda não sei qual é o o meu fado, por agora só me safo, só divago na minha vida, mas queria gostar do que faço, não só ser mais um encargo para a cabeça tudo o que trago, porque eu sei o que o futuro está na frente, não importa agora, mas ele é uma incerteza o que me aumenta a certeza que é ansiedade certa até que chegue a hora de agarrá-la ou tê-la na mão. Até lá vou ser perfecionista que enjoa só de pensar. Porque nunca nada está certo ou da forma que devi...

8 Filmes dos Primórdios do Cinema (Sugestões)

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     Boa tarde controversos.      Tendo em conta o meu gosto pela cinematografia, decidi deixar-vos uma lista de filmes que considero bons que surgiram nos primórdios do cinema, são filmes antigos e que a maioria considera uma "seca", porém, perceber a construção dos mesmos e estudar um pouco a evolução até aos dias de hoje é sempre interessante. Até porque, o cinema é uma das artes mais visualizadas e um vasto mercado.      Assim sendo aqui fica aquela lista de filmes que podes sempre ver nos teus tempos livres e fins-de-semana: Nostalgia (1983)  A Viagem ao Reino do Impossível (1904)  The Lonedale Operator (1911)  Rostos (1968)  Sonatine (1992)  Fogo de Artifício (1997)   Une Histori Imortelle (1968)  Intriga Internacional (1959)      Se já viste alguns destes filmes ou queres ver, partilha connosco a tua opinião sobre os mesmos e vamos gerar aqui boas críticas para influenciar mais pes...

Conversas com a Depressão - A consciência (5º Conto)

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  Eu sou plenamente consciente quando penso, e talvez deva passar mais tempo fora de mim, mas dentro do meu corpo. Encontrar o equilíbrio suposto para se viver minimamente feliz. Estar consciente é bom, de nós mesmos e de tudo o que pensamos, criamos, imaginamos, ilusões. Estar na terceira pessoa na história que conto e rir-me à pala de tudo o que consigo imaginar.  Certamente o meu imaginário anda a ver o mundo ao contrário e sempre fora do baralho, por isso a revolta de que não valho nada. É algo que criei para estar em baixo, e agora parece que só existe isso no meu horário. Tenho que me desapegar destes maus hábitos, não me levam a lado nenhum. Porquê é que os faço se a seguir me vou sentir mal por conseguir fazê-lo sem preocupações? E depois ficar mal porque uma vez mais eu sei que são tudo ilusões.      A depressão dá-me dias bons também, ainda que os maus estejam a ficar pior. Sou eu que me entrego cada vez mais à solidão, não me conforta a minha companhi...